3 de outubro de 2012

Qual é A VOCAÇÃO DO TEÓLOGO



Entre as vocações suscitadas na Igreja pelo Espírito, distingue-se a do teólogo, que em modo particular tem a função de adquirir, em comunhão com o Magistério, uma compreensão sempre mais profunda da Palavra de Deus contida na Escritura inspirada e transmitida pela Tradição viva da Igreja.

Por sua natureza a fé se apela à inteligência, porque desvela ao homem a verdade sobre o seu destino e o caminho para o alcançar. Mesmo sendo a verdade revelada superior a todo o nosso falar, e sendo os nossos conceitos imperfeitos frente à sua grandeza, em última análise insondável (Ef 3, 19), ela convida porém a razão — dom de Deus feito para colher a verdade — a entrar na sua luz, tornando-se assim capaz de compreender, em certa medida, aquilo em que crê. A ciência teológica, que respondendo ao convite da verdade, busca a inteligência da fé, auxilia o Povo de Deus, de acordo com o mandamento do Apóstolo (1 Pd 3, 15), a dar razão da própria esperança, àqueles que a pedem.

O trabalho do teólogo responde assim ao dinamismo interno da própria fé: por sua natureza a Verdade quer comunicar-se, já que o homem foi criado para perceber a verdade, e deseja no mais profundo de si mesmo conhecê-la para nela se encontrar e para ali encontrar a sua salvação (1 Tm 2, 4). Por isto o Senhor enviou os seus apóstolos para que fizessem « discípulas » todas as nações e as ensinassem (Mt 28, 19s.). 

A teologia, que busca a « razão da fé » e que àqueles que procuram oferece esta razão como uma resposta, constitui parte integrante da obediência a este mandamento, porque os homens não podem tornar-se discípulos se a verdade contida na palavra da fé não lhes é apresentada (Rm 10, 14s.).

A teologia oferece portanto a sua contribuição para que a fé se torne comunicável, e a inteligência daqueles que não conhecem ainda o Cristo possa procurá-la e encontrá-la. A teologia, que obedece ao impulso da verdade que tende a comunicar-se, nasce também do amor e do seu dinamismo: no ato de fé, o homem conhece a bondade de Deus e começa a amá-lo, mas o amor deseja conhecer sempre melhor aquele a quem ama.

Desta dúplice origem da teologia, inscrita na vida interior do Povo de Deus e na sua vocação missionária, deriva o modo pelo qual ela deve ser elaborada para atender às exigências da sua natureza.

Visto que o objeto da teologia é a Verdade, o Deus vivo e o seu desígnio de salvação revelado em Jesus Cristo, o teólogo é chamado a intensificar a sua vida de fé e a unir sempre pesquisa científica e oração.

Será assim mais aberto ao « senso sobrenatural da fé » do qual depende e que se lhe apresentará como uma segura norma para guiar a sua reflexão e verificar e exatidão das suas conclusões.

No decorrer dos séculos a teologia constituiu-se progressivamente em verdadeiro e próprio saber científico. E portanto necessário que o teólogo esteja atento às exigências epistemológicas da sua disciplina, às exigências do rigor crítico, e consequentemente à verificação racional de todas as etapas da sua pesquisa. Mas a exigência crítica não se identifica com o espírito crítico, que nasce, pelo contrário, de motivações de caráter afetivo ou de preconceito. 

O teólogo deve discernir em si mesmo a origem e as motivações de sua atitude crítica e permitir que o seu olhar seja purificado pela fé. O empenho teológico exige um esforço espiritual de retidão e de santificação.

Mesmo transcendendo a razão humana, a verdade revelada se harmoniza profundamente com ela. Isso supõe que a razão seja naturalmente ordenada à verdade, de modo que, iluminada pela fé, ela possa penetrar o significado da Revelação. Contrariando as afirmações de muitas correntes filosóficas, mas em consonância com um reto modo de pensar confirmado pela Escritura, deve-se reconhecer a capacidade da razão humana de atingir a verdade, assim como a sua capacidade metafísica de conhecer a Deus a partir da criação.

A tarefa própria à teologia de compreender o sentido da Revelação exige, portanto, o uso de aquisições filosóficas que forneçam « um sólido e harmônico conhecimento do homem, do mundo e de Deus », e possam ser assumidas na reflexão sobre a doutrina revelada. As ciências históricas são igualmente necessárias aos estudos do teólogo, antes de mais nada pelo caráter histórico da própria revelação, que nos foi comunicada em uma « história de salvação ». Deve-se enfim recorrer, também, às « ciências humanas », para melhor compreender a verdade revelada sobre o homem e sobre as normas morais do seu agir, colocando em relação com ela os resultados válidos destas ciências.

Nesta perspectiva, é tarefa do teólogo assumir da cultura do seu ambiente elementos que lhe permitam melhor iluminar um ou outro aspecto dos mistérios da fé. Uma tal tarefa é certamente árdua e comporta riscos, mas é em si mesma legítima e deve ser encorajada.

A este respeito, é importante sublinhar que a utilização pela teologia de elementos e instrumentos conceituais oriundos da filosofia ou de outras disciplinas, exige um discernimento cujo princípio normativo último é a doutrina revelada. É ela que deve fornecer os critérios para o discernimento destes elementos e instrumentos conceituais, e não vice-versa.

O teólogo, não esquecendo jamais que também ele é membro do Povo de Deus, deve nutrir-lhe respeito, e esforçar-se por dispensar-lhe um ensinamento que não venha a lesar, de modo algum, a doutrina da fé. A liberdade própria da pesquisa teológica, é exercitada no interior da fé da Igreja. 

A ousadia, portanto, que com frequência se impõe à consciência do teólogo, não pode dar frutos e « edificar », se não é acompanhada pela paciência da maturação. As novas propostas avançadas pela compreensão da fé « não são senão uma oferta feita a toda a Igreja. São necessárias muitas correções e alargamentos de perspectiva, em um diálogo fraterno, antes que chegue o momento em que toda a Igreja possa aceitá-las ». Por conseguinte a teologia, enquanto « serviço muito desinteressado à comunidade dos fiéis, comporta essencialmente um debate objetivo, um diálogo fraterno, uma abertura e uma disponibilidade para modificar as próprias opiniões ».

A liberdade de investigação, que é justamente estimada pela comunidade dos homens de ciência como um dos seus bens mais preciosos, significa disponibilidade para acolher a verdade tal como ela se apresenta ao fim de uma investigação, na qual não tenha interferido qualquer elemento estranho às exigências de um método que corresponda ao objeto estudado.

Na teologia esta liberdade de investigação inscreve-se no interior de um saber racional cujo objeto é dado pela Revelação, transmitida e interpretada na Igreja sob a autoridade do Magistério, e acolhida pela fé. Descurar estes dados que têm valor de princípio, seria equivalente a deixar de fazer teologia. Para bem precisar as modalidades desta relação com o Magistério, torna-se agora oportuno refletir sobre o papel deste ultimo na Igreja.

Fonte: INSTRUÇÃO DONUM VERITATIS SOBRE A VOCAÇÃO ECLESIAL DO TEÓLOGO

ADAPTAÇÃO: Jailson Zanini

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