27 de fevereiro de 2012

Abstinência de Carne e não de peixe

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Com o aproximar da sexta-feira santa muitos indagam deste articulista o motivo pelo qual há abstinência de carne e não de peixe. Desde os tempos pré-históricos houve uma predileção especial do ser humano para a chamada carne vermelha. Este um fato tão antigo quanto a humanidade.  Estudos feitos por cientistas das arcadas dentárias do homem das cavernas confirmam esta tese.  Desenhos rupestres mostram o homem caçador em busca deste alimento, sempre considerado como fortalecedor do organismo. Há de se acrescentar o gosto especial que retém esta comida de alto valor calórico. Mesmo tendo aprimorado aos poucos a agricultura não foi abolida a carne no cardápio de todos os tempos. 

Até em nossos dias, apesar dos nutricionistas insistirem no valor nutritivo do peixe,  este hábito permanece constante. Os restaurantes ampliam seu menu oferecendo apetitosos churrascos, deliciosos bifes, ou seja, fatias, em geral arredondada, de carne bovina, cortadas, por via de regra, do filé, da alcatra, que é frita ou grelhada, e servida individualmente, com o molho da própria carne ou com outro.  Relacionam-se nos cardápios  chatobriã, medalhão, turnedô, escalope e rosbife.

Encontram-se por toda parte o bife a cavalo, ou seja bife com ovos fritos, também conhecido como o bife à Camões; o bife à milanesa; o bife a pé, ou bife com ovos e batatas fritas; o bife de carne moída ou o hambúrger; o bife de chapa, preparado ao calor de chapa de metal, ou de frigideira com pouca gordura; o bife de panela; o quibe, iguaria árabe, geralmente feita de carne moída e trigo integral, e temperada com hortelã-pimenta e outros condimentos com fatias de carne refogadas e cozidas em molho; o bife enrolado ou cortado fino, envolto em toucinho, cenoura e outros condimentos e ensopado, também conhecido como o bife rolê, ou simplesmente rolê; o bife panado que é o  bife a milanesa.

Isto sem falar no bolinhos de carne ou também de outros pratos feitos com carne passada na máquina, temperada com cebola, salsa, mostarda. Tudo isto sem falar nos outros inúmeros pratos feitos com carne de outros animais. 

Privar-se destes saborosos alimentos com espírito de penitência é sumamente agradável a Deus, purificando o homem de seus pecados inclusive da gula. No início do cristianismo os dias de jejum e abstinência de carne eram a quarta e a sexta-feira. Estão mencionados na Didaqué, catecismo dos primeiros cristãos do século II (8,1). Eram denominados com imagem militar: dias de vigília, ou seja, vigília com o Senhor que sofreu. O sínodo de Elvira na Espanha pelo ano de 306 menciona, além disso, um jejum do sábado e, sem dúvida, já neste período tal dia de jejum e abstinência tornou-se uso também na Igreja romana.  Com o passar dos tempos tal prática foi se abrandando. Hoje, toda sexta-feira do ano é dia de penitência, a não ser que coincida com solenidade do calendário litúrgico.

Os fiéis nesse dia se abstêm de carne ou outro alimento, ou praticam alguma forma de penitência, principalmente obra de caridade ou exercício de piedade. Na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa, memória da Paixão e Morte de Cristo há o jejum e a  abstinência de carne obrigatórias. A abstinência pode ser substituída pelos próprios fiéis por outra prática de penitência, caridade ou piedade, particularmente pela participação nesses dias na Sagrada Liturgia. Tal é a Legislação complementar da CNBB quanto aos cânones 1251 e 1253. Estão obrigados à lei da abstinência aqueles que tiverem completado catorze anos de idade e à lei do jejum todos os maiores de idade, ou seja, quem completou 18 anos até os sessenta anos começados. A Igreja, porém, insiste que se forme o genuíno sentido da penitência e não se caia num formalismo deletério.


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Professor no Seminário de Mariana - MG

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